segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Privatização e coerência

O PT está pensando em fazer uma cartilha para explicar à militância que no caso dos aeroportos não houve privatização, mas uma concessão. Seja como for, a verdade é que três principais aeroportos do País ficarão administrados pela iniciativa privada por um tempo médio de 30 anos e com expressivo financiamento do BNDES, a juros subsidiados. Aliás, o que seria financiar mais 20 ou 30 bilhões de reais a juros negativos para quem já financiou mais de R$ 280 bilhões?

Mas acho que não houve uma mudança de ideologia, mas o medo de enfrentar o maior apagão da história em matéria de transportes aéreos, durante a realização Copa do Mundo, o que seria um mico difícil de suportar. Tudo isso porque aceitaram patrocinar a realização de um evento para o qual o País não estava preparado dentro do tempo estabelecido para sua realização.

No entanto, uma coisa é estar na oposição e outra é estar no governo. Mas é preciso ter cuidado com o que é afirmado fora do governo, para evitar situações que colocam cada vez mais em descrença a classe politica.

Não é que as pessoas não possam mudar. Podem e devem. Não se pode esperar que ideias e conceitos permaneçam imutáveis diante de uma realidade que constantemente varia. O que se discute no caso é a adoção de políticas e práticas antes demonizadas.

Isso era feito antes com a dívida externa, que precisava de uma auditoria, e depois o pouco que havia foi pago antes do vencimento e, ainda, considerado um grande feito.

O superávit primário, a poupança para pagar a dívida, era considerado como benefício ao FMI e aos banqueiros. Depois, seu valor foi quase duplicado.

Quem não se lembra da pregação que havia contra os transgênicos, alvos das mais torpes acusações. Hoje ninguém mais fala nisso, porque eles são os responsáveis pelo saldo positivo da balança comercial que, sem o agronegócio, seria altamente negativo, porque a balança da indústria gerou um déficit de US$ 43 bilhões até novembro do ano passado.

E a bolsa família, antes considerada esmola e comparada às quinquilharias com que Cabral subornava os índios!

E os benefícios fiscais às empresas, sempre tão combatidos, transformaram-se na politica predileta do governo no enfrentamento à crise financeira, mesmo com inegável prejuízo às transferências a estados e municípios!

A privatização é necessária em muitos casos, mas sempre sem abandonar a coerência!



Publicado na Zero Hora de 13/02/2012, p.13.